Há cerca de 10 anos, quando eu estava na faculdade de Direito, via o mundo jurídico como um campo de batalha.
Processos intermináveis, argumentação técnica e decisões que chegavam anos depois, deixando as partes sem uma solução efetiva para o problema enfrentado.
Desde daquele momento, não me encaixava nesse perfil tradicional de advogado litigante e processualista, focado no direito material e em disputas judiciais prolongadas.
Aquilo não resolvia problemas reais – apenas os adiava. Minha jornada começou a se moldar ali. Foi o início de uma mentalidade de ver o advogado como resolvedor de problemas – uma visão oposta à prática geral, onde o foco está na disputa, não na solução.
Essa inquietação ganhou forma durante a faculdade, quando tive meus primeiros contatos com mediação e resolução consensual de conflitos. Tive o prazer de ser campeão da competição brasileira de Mediação Empresarial organizada pela CAMARB. Naquele momento, descobri que era possível advogar de forma estratégica e sem a necessidade de levar a resolução da disputa para o Poder Judiciário.
A partir desta premissa, consegui entender que o verdadeiro valor de um advogado está em ouvir além das palavras, mapear interesses ocultos e construir soluções em contextos em que o litígio já dominou as relações entre as partes.
Sob esta perspectiva, ficou evidente que conflitos não precisam ser tratados com uma guerra entre as partes envolvidas. Muitas vezes, é a oportunidade necessária para ajustar rotas e evoluir. Essa mentalidade me fez trilhar um caminho de muito aprendizado e não muito convencional para o começo de uma carreira jurídica.
Entrando no mercado em 2020, minha visão se consolidou com experiências práticas que me desafiaram a equilibrar técnica com sensibilidade humana. Minha primeira grande experiencia profissional foi na Faleck & Associados, onde atuei como facilitador entre as partes envolvidas por quase três anos no Programa de Compensação Financeira de Maceió (PCF). Milhares de famílias afetadas pela extração de sal-gema, bairros inteiros em desocupação e danos ambientais profundos.
Em um contexto em que precisava equilibrar técnica e humanidade simultaneamente, ficou evidente a importância desse profissional resolvedor de problemas. Trabalhei com técnicas de mediação e negociação em cada procedimento, reconhecendo que por trás de cada caso havia trauma, luto e incerteza. Entendi que priorizar soluções consensuais não é apenas evitar o desgaste judicial, mas permitir que pessoas reconstruam suas vidas com dignidade, sem prolongar o sofrimento através de disputas intermináveis.
Essa experiência moldou meu entendimento de que a verdadeira resolução de conflitos exige simultaneidade: rigor técnico, agilidade processual e profunda empatia humana. Vi na prática como um advogado que ignora o aspecto emocional falha na essência do seu trabalho.
Partindo dessa experiência, vale também ressaltar a importância do profissional de resolução de disputas desenvolver uma visão sistêmica sobre as disputas em que está inserido. Resolver conflitos em escala é um trabalho multidisciplinar que combina conhecimento jurídico, gestão de operações, tecnologia e comunicação.
Essa mentalidade se aprofundou na MOL - Med, lawtech especializada em Online Dispute Resolution (ODR), onde apoiei grandes empresas B2C na gestão de contencioso cível e criação de fluxos personalizados para resolução de demandas específicas, como antecipação de recebíveis e gestão de problemas com os consumidores.
Lidávamos com volumes massivos de processos repetitivos e desnecessários, expondo os limites da judicialização tradicional: processos arrastados, custos desnecessários e zero resolução do problema. Não era sobre vencer batalhas, mas sobre eficiência humana: priorizar o tempo como ativo valioso, transformando impasses em acordos que recuperam créditos ou encerram processos, preservam relações e evitam litígios desnecessários.
Em 2024, com a criação da FSG Advogados, pude aplicar esses princípios em negociações imobiliárias, resolução de disputas familiares e gerenciamento de riscos corporativos.
Desde o início da minha carreira profissional, mergulhei na metodologia de Negociação desenvolvido pelo Programa de Negociação de Harvard (PON), consolidado no livro “Como Chegar ao Sim”, que me ensinou a separar as pessoas do problema e, sobretudo, a compreender uma verdade fundamental: não se trata de ganhar uma negociação, mas de ter sucesso nela. E sucesso significa que todas as partes podem sair satisfeitas com o acordo e, especialmente, com o problema resolvido.
Acredito que o advogado resolvedor de problemas deve atuar como um arquiteto de soluções: diagnosticar o problema com precisão, separar as pessoas do problema a ser resolvido e priorizar o tempo como o ativo mais valioso. Conflitos são naturais em qualquer relação humana ou empresarial – o problema não é a divergência, mas como ela é conduzida.
Atualmente, em um cenário onde a IA resolve as demandas repetitivas, resta cada vez mais evidente que o advogado do futuro é um resolvedor de conflitos humanos. Não um operador de processos. A IA dominará a repetição, a análise de dados em massa e a elaboração de petições de qualquer grau de complexidade. Mas ela nunca lidará com o luto de uma família que perdeu tudo em um desastre, com a raiva de um empresário em crise ou com a vaidade e ego de dois irmãos disputando os bens deixados pelos pais.
Essas experiências e mentalidade sobre a atuação do “advogado do futuro” me levaram a fundar a JGF Prevenção e Resolução de Conflitos, um escritório dedicado à prática extrajudicial e métodos consensuais.
